A aprendizagem ao longo da vida, uma prioridade estratégica
Um novo relatório da OIT alerta que sem sistemas de aprendizagem ao longo da vida mais robustos e inclusivos, as transformações digitais, verdes e demográficas correm o risco de agravar as desigualdades.
5 de maio de 2026
GENEBRA (Notícias da OIT) — À medida que a digitalização e a inteligência artificial (IA), a transição para a economia verde e as mudanças demográficas reconfiguram os mercados de trabalho a nível mundial, um novo relatório da OIT apela aos governos para que façam da aprendizagem ao longo da vida um pilar central das políticas económicas e sociais.
O relatório Lifelong learning and skills for the future [Aprendizagem ao longo da vida e competências para o futuro], produzido com base: em novos inquéritos às trabalhadoras e aos trabalhadores, em análises de ofertas de emprego em linha, em dados institucionais e numa revisão sistemática de 174 estudos sobre o que funciona na formação, alerta para a necessidade de um investimento mais forte em sistemas de aprendizagem inclusivos, sem o qual aquelas transformações correm o risco de agravar as desigualdades nos países e entre países.
«A aprendizagem ao longo da vida é a ponte entre os empregos de hoje e as oportunidades de amanhã. Não se trata apenas de empregabilidade e produtividade, mas também de apoiar o trabalho digno, impulsionar a verdadeira inovação e construir sociedades resilientes, tornando-a um elemento central de qualquer estratégia bem-sucedida para o crescimento e desenvolvimento sustentáveis», afirmou o diretor-geral da OIT, Gilbert F. Houngbo.
A aprendizagem ao longo da vida é a ponte entre os empregos de hoje e as oportunidades de amanhã. Não se trata apenas de empregabilidade e produtividade, mas também de apoiar o trabalho digno, impulsionar a verdadeira inovação e construir sociedades resilientes.
Gilbert F. Houngbo, diretor-geral da OIT
Um cenário de competências em mudança nos diferentes países com risco acrescido de aprofundamento das desigualdades
À medida que o mundo do trabalho enfrenta mudanças profundas, estas implicam alterações relevantes nas exigências de competências. As tecnologias digitais, incluindo a IA, estão a mudar a forma como o trabalho é realizado, enquanto a transição para economias ambientalmente sustentáveis está a reconfigurar os sistemas de produção e os empregos. Simultaneamente, o envelhecimento da população, em muitas regiões, está a gerar maiores pressões sobre a população ativa de idade mais elevada e a aumentar as necessidades de prestação de cuidados.
Apenas 16 por cento das pessoas com idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos referiram ter participado em formação estruturada no ano anterior à entrevista [para este estudo], com reduzidas diferenças entre os países. É entre as trabalhadoras e os trabalhadores a tempo completo e com contrato permanente em empresas formais, que a participação é mais elevada, com 51 por cento a declarar que recebeu formação por iniciativa da entidade patronal. Esta disparidade revela desigualdades significativas no acesso à aprendizagem, especialmente entre trabalhadoras e trabalhadores formais e informais e entre quem possui diferentes habilitações escolares.
O relatório mostra que as trabalhadoras e os trabalhadores com menor nível de habilitação escolar formal, em empregos informais e/ou em empresas de menor dimensão, aprendem predominantemente «através da experiência», enquanto que em contexto formal existem maiores probabilidades de aprendizagem com colegas experientes e de ter acesso a formação estruturada. Isto evidencia a necessidade de sistemas de aprendizagem que reflitam melhor a forma como as pessoas adquirem competências ao longo da sua vida profissional.
Para além das competências digitais e verdes
Uma conclusão fundamental do relatório é que uma abordagem centrada exclusivamente nas competências técnicas não é suficiente.
Em países com diferentes níveis de rendimento, os empregadores procuram cada vez mais combinações de competências. As competências digitais e verdes são importantes, mas são frequentemente exigidas em conjunto com competências cognitivas fundamentais, socioemocionais e manuais. As pessoas com estes perfis de competências «abrangentes» têm mais probabilidades de aceder a empregos com salários mais elevados e a melhores condições de trabalho.
A análise própria da OIT sobre dados de ofertas de emprego em linha revela uma forte procura por um conjunto de competências digtais, de comunicação, de trabalho em equipa e de resolução de problemas. As competências socioemocionais, por si só, representam mais de metade das competências requeridas em países como o Brasil, Emirados Árabes Unidos e Marrocos, por exemplo, e mais de 40 por cento na África do Sul, no Egito, na Jordânia e no Uruguai. As competências cognitivas e técnicas também são amplamente procuradas.
Atualmente, as competências específicas em IA representam apenas uma pequena parcela da procura total de competências. Espera-se que esta procura cresça, mas reflete também o facto de muitos trabalhadores utilizarem ferramentas de IA prontas a usar sem necessidade de competências especializadas. Em vez disso, dependem de competências fundamentais sólidas, como literacia digital, pensamento crítico e aptidões sociais.
A OIT estima que, a nível mundial, 32 por cento das pessoas que trabalham desempenham tarefas relevantes do ponto de vista ambiental. O relatório adverte que os empregos ligados à transição verde não são automaticamente empregos dignos. Sem a combinação certa de competências e políticas, estas novas oportunidades podem não proporcionar melhores condições de trabalho.
O relatório destaca igualmente as crescentes necessidades de prestação de cuidados, prevendo-se que a procura a nível mundial de profissionais que prestem cuidados continuados aumente de 85 milhões em 2023 para 158 milhões em 2050. No entanto, muitas e muitos profissionais de cuidados continuam a enfrentar más condições de trabalho, evidenciando que as competências são frequentemente subvalorizadas e mal remuneradas em setores que prestam serviços essenciais para as sociedades.
A aprendizagem ao longo da vida como prioridade política
O relatório apela a uma abordagem abrangente da aprendizagem ao longo da vida, para além da educação formal para incluir oportunidades de aprendizagem e formação nos locais de trabalho e em toda a sociedade.
A aprendizagem ao longo da vida vai para além da empregabilidade e da produtividade. Ela sustenta o trabalho digno, a inovação genuína, a cidadania ativa e a inclusão social, tornando-se a pedra angular de qualquer estratégia eficaz para o crescimento e o desenvolvimento sustentáveis.
No entanto, em muitos países, os sistemas de aprendizagem continuam fragmentados e cronicamente subfinanciados. Mesmo nos países de rendimento elevado, 34 por cento afetam menos de 1 por cento dos seus orçamentos públicos à aprendizagem e educação dirigida à população adulta. Nos países de rendimento baixo, esse valor sobe para 63 por cento.
Os países de rendimento elevado beneficiam geralmente de enquadramentos institucionais mais desenvolvidos, mas persistem desafios significativos, incluindo uma coordenação deficiente entre instituições e um acesso desigual às oportunidades de aprendizagem. Nos países de rendimento mais baixo, barreiras estruturais, tais como financiamento insuficiente e infraestruturas inadequadas, limitam ainda mais o alcance e a eficácia dos sistemas de aprendizagem.
Os governos, as organizações de empregadores e as organizações de trabalhadores têm todos um papel a desempenhar. O relatório apela a um acesso mais amplo e equitativo à aprendizagem, a sistemas de formação sólidos e a políticas de aprendizagem ao longo da vida que se adaptem melhor à vida das pessoas. Salienta ainda a necessidade de uma governação, coordenação, financiamento e diálogo social sólidos. Sem uma ação decisiva, adverte o relatório, as transformações que reconfiguram o futuro do trabalho correm o risco de deixar para trás grandes segmentos da força de trabalho a nível mundial.