Participantes do lançamento da versão em português do estudo Mulheres na Economia de Plataformas: desafios e oportunidades na Ibero-América

Trabalho decente

Plataformas digitais ampliam oportunidades, mas aprofundam desigualdades de gênero na Ibero-América, aponta estudo

Relatório da SEGIB, OIT e ONU Mulheres revela que mulheres ganham até 67% menos em plataformas digitais e destaca a urgência de políticas com foco em igualdade, proteção social e transparência algorítmica. A versão em português do estudo foi lançada em um evento tripartite realizado em Brasília.

17 de abril de 2026

O lançamento da versão em português do estudo foi realizado em Brasília, com o objetivo de apresentar seus principais achados e recomendações do estudo. © OIT

BRASÍLIA (Notícias da OIT) – A Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), o escritório Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o Brasil e a ONU Mulheres apresentaram nesta quinta-feira a versão em português do estudo “Mulheres na economia de plataformas: desafios e oportunidades na Ibero-América”, que analisa o crescimento do trabalho feminino em plataformas digitais e alerta sobre as desigualdades persistentes nesse modelo de trabalho.

O relatório estima que 3,5 milhões de mulheres na região — cerca de 2,5% da força de trabalho feminina — geram renda por meio de plataformas digitais. Embora esse modelo amplie as oportunidades e ofereça flexibilidade, também reproduz desigualdades de gênero.

O lançamento da versão em português do estudo foi realizado em Brasília, em formato híbrido, com o objetivo de apresentar seus principais achados e recomendações, destacando implicações para políticas públicas e práticas empresariais, além de promover o debate sobre riscos e desigualdades de gênero no trabalho em plataformas. O evento reuniu representantes de governos, organismos internacionais, organizações de trabalhadores, setor privado e academia.

Ao abrir o evento ao lado da representante da ONU Mulheres no Brasil, Gallianne Palayret, e do diretor Subregional para o Cone Sul de SEGIB, Esteban Campero, o diretor do Escritório da OIT para o Brasil, Vinícius Pinheiro, destacou que o estudo mostra que as brechas de gênero existentes no mercado de trabalho tradicional se reproduzem, e em alguns casos se aprofundam, no ambiente digital.

A abertura do evento reuniu representantes da OIT,  da Secretaria-Geral Ibero-Americana e da ONU Mulheres.
© Pedro Nogueira/ONU Mulheres
© Pedro Nogueira/ONU Mulheres
A abertura do evento reuniu representantes das três organizações responsáveis pelo estudo: Secretaria-Geral Ibero-Americana, OIT e ONU Mulheres.

‘Nas plataformas de trabalho online, as mulheres ganham, em média, menos por hora do que os homens. Ou seja, o mesmo trabalho digital, o mesmo acesso, os mesmos algoritmos — e ainda assim um resultado profundamente desigual.’ , disse Pinheiro.

“ As mulheres estão concentradas nas ocupações de plataforma menos remuneradas. Os homens estão sobrerrepresentados nas que tem a melhor remuneração como desenvolvimento de software, programação, tecnologia.”,

Desigualdades econômicas mesmo entre mulheres qualificadas

O especialista Regional da OIT em Políticas Públicas e Produtividade apra a América Latina e o Caribe, Túlio Cravo, apresentou os principais achados e recomendações do estudo.

Um dos achados mais contundentes é a persistência de desigualdades salariais, inclusive entre trabalhadoras com níveis educacionais semelhantes ou superiores aos de seus pares homens. Em plataformas de trabalho online, as mulheres ganham, em média, 40% a menos por hora e até 67% a menos em renda semanais. Além disso, dedicam cerca de 25% do seu tempo a tarefas não remuneradas, como a busca ou espera por trabalhos. Essas disparidades estão relacionadas a fatores como a segregação ocupacional, a menor presença feminina em áreas tecnológicas mais bem remuneradas e a carga desproporcional de cuidados.

O especialista Regional da OIT em Políticas Públicas e Produtividade apra a América Latina e o Caribe, Túlio Cravo, apresentou os principais achados e recomendações do estudo.
© Pedro Nogueira/ONU Mulheres
© Pedro Nogueira/ONU Mulheres
O especialista Regional da OIT em Políticas Públicas e Produtividade apra a América Latina e o Caribe, Túlio Cravo, apresentou os principais achados e recomendações do estudo.

Flexibilidade condicionada por cuidados e algoritmos

Embora a flexibilidade seja um dos principais atrativos desse tipo de trabalho, na prática ela é condicionada pelos algoritmos e pelas responsabilidades de cuidado. As plataformas costumam premiar a disponibilidade em horários de alta demanda — frequentemente noturnos —, o que limita as oportunidades de renda para muitas mulheres. Além disso, elas se concentram em tarefas menos remuneradas, como atendimento ao cliente ou trabalho administrativo, e estão sub-representadas em ocupações tecnológicas.

Riscos e falta de proteção social
Em plataformas baseadas em localização, como transporte ou entrega, o estudo identifica altos níveis de assédio e violência, além de uma percepção generalizada de desproteção. A classificação frequente como trabalhadoras autônomas restringe o acesso a direitos trabalhistas básicos, incluindo licença-maternidade, cobertura por doença e proteção social.

Brecha digital e barreiras de acesso
As desigualdades também se manifestam antes mesmo da entrada nesse mercado. Muitas mulheres enfrentam menor acesso a dispositivos, conectividade e financiamento, além de lacunas em habilidades digitais. Em alguns setores, a falta de ferramentas essenciais — como veículos motorizados no transporte — e os estereótipos de gênero limitam ainda mais sua participação e potencial de renda.

Rumo a uma economia digital mais justa

O estudo propõe uma abordagem integral que combine regulação com perspectiva de gênero, maior transparência algorítmica, fortalecimento da proteção social, redistribuição dos cuidados e medidas específicas de segurança.

Em diálogo tripartite, representantes da OIT, do Ministério das Mulheres, da Fenatrad e da Amobitec apresentaram seus comentários sobre o estudo e o tema da participação das mulheres da economia de plataformas.
© Pedro Nogueira/ONU Mulheres
© Pedro Nogueira/ONU Mulheres
Em diálogo tripartite, representantes da OIT, do Ministério das Mulheres, da Fenatrad e da Amobitec apresentaram seus comentários sobre o estudo e o tema da participação das mulheres da economia de plataformas.

À apresentação do estudo seguiu-se uma mesa de diálogo tripartite com a participação da secretária Nacional de Autonomia Economica e Política de Cuidados, do Ministério das Mulheres, Joana Passos, a Presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD), Cleide Pinto, o diretor Executivo da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), André Porto, e o especialista em Políticas de Emprego e Mercado de Trabalho da OIT, Aguinaldo Maciente.

O estudo, assinado pela Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela ONU Mulheres, baseia-se na análise de marcos regulatórios em 14 países, em pesquisas com mais de mil trabalhadores de plataformas online e em consultas a trabalhadoras de plataformas baseadas em localização.