O futuro do trabalho dependerá das escolhas políticas e sociais sobre a inteligência artificial, alerta a OIT
A inteligência artificial (IA) está a transformar rapidamente o mundo do trabalho, mas o seu impacto final não será determinado apenas pela evolução tecnológica. A mensagem foi deixada pelo diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Gilbert F. Houngbo, na abertura da 114.ª sessão da Conferência Internacional do Trabalho (CIT), que decorre em Genebra até 12 de junho.
8 de junho de 2026
Perante os representantes de governos, empregadores e trabalhadores dos 187 Estados-membros da OIT, presentes na Conferência Internacional do Trabalho o diretor- geral da OIT apelou a uma abordagem centrada nas pessoas para orientar o desenvolvimento e a utilização da inteligência artificial, sublinhando que o futuro do trabalho dependerá das políticas públicas, das instituições e do diálogo social que forem capazes de moldar esta transformação.
“O futuro do trabalho não será determinado apenas pela tecnologia, mas pelas políticas, instituições e diálogo social que o orientam”, afirmou Gilbert F. Houngbo.
A intervenção teve por base o relatório apresentado à Conferência, intitulado A moment of choice: Harnessing artificial intelligence for decent work [Um Momento de Escolha: Aproveitar o Potencial da Inteligência Artificial para Promover o Trabalho Digno], que identifica oportunidades e riscos associados à crescente adoção da IA no mundo do trabalho. Segundo Houngbo, a ação da comunidade internacional deverá assentar em quatro pilares estratégicos: direitos, emprego e competências, proteção social e diálogo social.
Um dos principais desafios apontados prende-se com a repartição dos ganhos de produtividade gerados pela inteligência artificial. O diretor-geral defendeu que os benefícios económicos decorrentes da inovação tecnológica devem traduzir-se em melhores salários, maior proteção laboral e crescimento inclusivo, evitando que a transformação digital contribua para o agravamento das desigualdades.
Destacou o papel fundamental da negociação coletiva e de mecanismos de governação da IA baseados na transparência, responsabilização e supervisão humana. “As escolhas que fizermos hoje determinarão se a IA ampliará as oportunidades e a prosperidade partilhada ou se aprofundará as desigualdades e a insegurança”, alertou.
A reflexão sobre a inteligência artificial surge num cenário internacional marcado por forte instabilidade económica e geopolítica. Houngbo chamou a atenção para os impactos do conflito no Médio Oriente sobre o trabalho a nível mundial, nomeadamente os impactos no setor marítimo, na migração laboral, na agricultura e onde empresas e trabalhadores da região enfrentam dificuldades significativas.
De acordo com estimativas recentes da OIT, um cenário prolongado de aumento dos preços do petróleo poderá traduzir-se numa redução das horas trabalhadas equivalente a 14 milhões de empregos a tempo completo ainda em 2026, podendo atingir 38 milhões de empregos até 2027. As perdas acumuladas de rendimento do trabalho poderão alcançar os três mil milhões de dólares até esse período, afetando particularmente os Estados Árabes e produzindo efeitos indiretos noutras regiões, incluindo a Ásia-Pacífico.
Além da discussão sobre inteligência artificial, a 114.ª sessão da CIT abordará vários temas estruturantes para o futuro do trabalho. Entre eles destaca-se a segunda discussão normativa sobre trabalho digno na economia de plataformas digitais, com vista à eventual adoção de novas normas internacionais do trabalho.
Caso sejam aprovadas, estas poderão tornar-se as primeiras normas internacionais especificamente direcionadas para os impactos da digitalização no mundo laboral. Os debates incluem matérias relacionadas com a promoção do emprego, a proteção dos trabalhadores das plataformas digitais e a utilização de sistemas automatizados de gestão e decisão.
A igualdade de género será igualmente um dos temas centrais da Conferência. Um comité especializado analisará as barreiras estruturais que continuam a limitar as oportunidades das mulheres no trabalho e discutirá políticas que garantam que as transições tecnológica, ambiental e demográfica contribuam para sociedades mais inclusivas e equitativas.
Outro dos focos da reunião será o reforço do diálogo social e do tripartismo, modelo de governação da OIT que analisará como a cooperação entre governos, empregadores e trabalhadores será decisiva para responder aos desafios associados à transformação digital, às mudanças demográficas e ao aumento das desigualdades, contribuindo simultaneamente para uma melhor governação do trabalho e para o avanço da justiça social.
A conferência decorre até ao dia 12 de junho e pode ser acompanhada em: CIT 2026