Panorama Laboral 2023

OIT: Apesar da redução da taxa de desemprego em 2023, a recuperação dos mercados de trabalho na América Latina e no Caribe ainda é insuficiente

Novo relatório regional da OIT alerta para a necessidade de adotar medidas que ajudem a evitar a precarização do emprego formal e estimulem a criação de mais empregos decentes na região.

19 de dezembro de 2023

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LIMA (Notícias da OIT).- Os mercados de trabalho na América Latina e no Caribe, quase quatro anos após o início da pandemia da COVID-19, recuperaram totalmente as suas taxas de emprego. No entanto, ainda são caracterizados por persistentes disparidades de gênero, desemprego juvenil, informalidade e perda do poder de compra dos salários, afirmou hoje o Escritório da OIT para a América Latina e o Caribe durante a apresentação do seu relatório Panorama Laboral 2023.

Durante a apresentação do Panorama Laboral 2023, Claudia Coenjaerts, Diretora Regional a.i. da OIT para a América Latina e o Caribe, disse que "o declínio do poder de compra dos salários, tanto mínimos quanto médios, é um desafio que tem impacto negativo na qualidade de vida das famílias latino-americanas e caribenhas. Apesar da recuperação do emprego, a massa da renda total do trabalho continua sendo inferior aos níveis pré-pandêmicos".

No contexto internacional, caracterizado por um crescimento global moderado e uma alta taxa de inflação, as economias da América Latina e do Caribe experimentaram uma recuperação generalizada, embora continuem enfrentando um cenário macroeconômico complexo.

A economia mundial deverá crescer 2,9% em 2023 e, na nossa região, espera-se um crescimento de 2,3%, segundo o FMI, e de 2,2%, segundo a CEPAL, no mesmo período. "Embora essas taxas indiquem uma recuperação, elas são inferiores aos níveis alcançados em 2022", comentou Coenjaerts.

Este ano, a dinâmica do mercado de trabalho na América Latina e no Caribe caracterizou-se por um aumento de 1% na taxa de emprego regional. Por outro lado, a participação continua sendo ligeiramente inferior aos níveis pré-pandêmicos (58,2% em 2023 em comparação com 57,9% em 2019) e, finalmente, uma taxa média de desemprego de 6,5%.

"Embora o emprego urbano tenha retornado aos valores de 2019, ainda há uma certa defasagem no emprego rural", disse Roxana Maurizio, especialista em mercado de trabalho na região e coordenadora do relatório. "Isso contribuiu para ampliar a lacuna de emprego em favor das áreas urbanas que existia antes da pandemia", acrescentou.

A taxa de participação no mercado de trabalho, conforme mencionado anteriormente, é menor do que os valores pré-pandêmicos em ambas as áreas, em torno de -2%.

Por fim, devido à recuperação mais intensa do emprego em relação à oferta de mão de obra em comparação com 2019, a taxa de desemprego diminuiu tanto nas áreas urbanas quanto nas áreas rurais, em 2,5 pontos percentuais e 1,7 ponto percentual, respectivamente.

Gênero, emprego juvenil, informalidade e salários

Em nível regional, a recuperação do emprego feminino continuou sendo mais intensa do que a do emprego masculino. No entanto, as disparidades por gênero persistem e continuam sendo muito elevadas na América Latina e no Caribe.

De acordo com Claudia Coenjaerts, "a taxa de participação feminina no mercado de trabalho é 23% inferior à dos homens, enquanto a taxa de emprego é 22,5% menor. Essas disparidades são ainda mais acentuadas entre os diferentes níveis de educação. Essa situação aponta para a necessidade de promover políticas de cuidados transformadoras, o que possibilitaria alcançar mais igualdade entre homens e mulheres, já que estas últimas carregam o maior fardo do trabalho de cuidados".

O relatório alerta sobre a situação do emprego juvenil. A taxa de desemprego juvenil é de 14,4%, quase três vezes superior à dos adultos, que é de cerca de 5%. No entanto, alguns países da região apresentam taxas significativamente mais altas, atingindo valores próximos a 30%.

Além disso, persistem as principais dificuldades históricas enfrentadas pelos jovens nos mercados de trabalho da região. Eles enfrentam mais situações de trabalho intermitente devido aos intensos fluxos de entrada e saída da força de trabalho. A maior instabilidade ocupacional, por sua vez, está associada à sua maior prevalência em atividades informais, precárias e pouco qualificadas.

Esses desafios, alerta o relatório, podem se intensificar com as transformações tecnológicas. No contexto atual de procura crescente de competências digitais, a formação profissional é essencial para preencher a lacuna digital e de competências entre os jovens, bem como para garantir o aumento da sua empregabilidade e acesso a empregos de qualidade.

A recuperação do emprego continuou sendo impulsionada pelo crescimento do emprego informal na maioria dos países. Os empregos informais representaram entre 40% e 95% da criação de empregos entre o terceiro trimestre de 2020 e o segundo trimestre de 2023.

A taxa média de informalidade nos mercados de trabalho da região era de 48% em meados de 2023, mas em alguns países foi superior a 70%.

Nesse sentido, o panorama regional continua sendo muito complexo. Ainda mais considerando que certos ramos de atividade –como o serviço doméstico– com alta incidência de informalidade e participação feminina ainda registram defasagens na recuperação do emprego.

"A região precisa de medidas abrangentes que apoiem a criação de empregos formais, fortaleçam as instituições trabalhistas e ofereçam proteção social e renda àqueles que mais precisam em um mundo do trabalho em transformação", concluiu Coenjaerts.

Três décadas de análise para criar trabalho decente

Como Tópico Especial para o 30º aniversário da publicação ininterrupta do Panorama Laboral, foi realizada uma análise abrangente para apresentar uma visão holística da evolução do mercado de trabalho contextualizada no contexto das transformações mais amplas enfrentadas pela região da América Latina e do Caribe nas últimas três décadas.

Em particular, discute as mudanças na estrutura de emprego, destacando o declínio da agricultura, a estagnação da indústria, o crescimento sustentado dos serviços e uma grande heterogeneidade produtiva dentro e entre os setores econômicos, bem como entre regiões e territórios.

A participação das mulheres no mercado de trabalho mostrou avanços, embora insuficientes, com um aumento na taxa da participação das mulheres com 15 anos ou mais de 41,3% no início da década de 1990 para 53,9%, em média, em 2022. No entanto, continua sendo inferior à dos homens (76,3%).

Também destaca o desafio contínuo para a inclusão dos jovens e sua projeção em direção a trajetórias de trabalho decente, em um contexto em que as taxas de desemprego juvenil são mais do que o dobro das taxas gerais, e as taxas de emprego e participação são significativamente mais baixas.

Além disso, se aprofunda na análise dos avanços tecnológicos e da digitalização acelerada, em particular os desafios do presente e do futuro do trabalho, como a adaptação da legislação e das instituições, a crescente expansão das plataformas digitais de trabalho, com necessidades e dilemas para sua medição e regulamentação, o trabalho remoto e o teletrabalho, e as reconsiderações que surgiram nessa área com a pandemia da COVID-19 e que continuarão no futuro.

"O Panorama Laboral não é apenas um guia para a tomada de decisões, mas também uma fotografia e um registro histórico do que está acontecendo na nossa região", disse Coenjaerts.

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