Ibero- América
Mais proteção, menos desigualdade: a urgência de uma perspectiva de gênero na segurança e saúde no trabalho
Novo relatório da OIT e da OISS alerta para a forma como os riscos profissionais afetam de forma diferente mulheres e homens, destacando a invisibilidade de setores com maior predominância de mulheres, como o trabalho de prestação de cuidados.
24 de março de 2025
LIMA (Notícias da OIT) – Historicamente, a medicina e a gestão da segurança e saúde trabalho (SST) foram desenhadas com base em um modelo de referência masculino, o que levou a subestimar os riscos ocupacionais que afetam mulheres e homens de forma diferente.
Um novo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Ibero-Americana de Segurança Social (OISS) destaca como esta visão androcêntrica não considerou as diferenças entre homens e mulheres ou os aspectos de gênero.
O estudo intitulado Segurança e Saúde no Trabalho com Perspectiva de Gênero: Desafios e Avanços na Ibero-América revela que a identificação dos riscos ocupacionais e as estratégias de prevenção têm priorizado setores tradicionalmente masculinizados, deixando de lado os desafios que as mulheres enfrentam no local de trabalho. Além disso, os riscos profissionais em setores com alta predominância de mulheres e pouco reconhecidos, como os relacionados com a prestação de cuidados e o trabalho doméstico, permaneceram invisíveis.
Esta falta de reconhecimento se traduz em um menor investimento em medidas de proteção adaptadas às necessidades específicas das trabalhadoras, o que aumenta a sua vulnerabilidade a diversos riscos. Um exemplo claro é a falta de equipamentos de proteção individual adaptados à anatomia feminina.
De acordo com estimativas conjuntas da OIT e da Organização Mundial da Saúde (OMS), 86% das mortes por doenças isquêmicas do coração causadas por longas jornadas de trabalho ocorrem entre homens. Em contrapartida, as mulheres enfrentam níveis mais elevados de ansiedade e depressão, muitas vezes associados à sobrecarga de trabalho em setores altamente feminizados, como a saúde, a educação e o trabalho de prestação de cuidados.
“As mulheres enfrentam desafios específicos no mundo do trabalho, derivados tanto das desigualdades estruturais como dos preconceitos de gênero na gestão da segurança e saúde no trabalho”, afirmou Ana Virgínia Moreira Gomes, diretora regional da OIT para a América Latina e o Caribe.
Para assegurarmos a existência de ambientes de trabalho seguros, é essencial uma gestão que integre transversalmente a perspectiva de gênero, garantindo que as diferenças entre mulheres e homens sejam adequadamente reconhecidas e abordadas.
Ana Virgínia Moreira Gomes, diretora regional da OIT para América Latina e o Caribe
Da mesma forma, a divisão sexual injusta do trabalho entre homens e mulheres significa que o trabalho reprodutivo e de cuidados recai principalmente sobre as mulheres, enquanto o trabalho produtivo é realizado por homens. A isto acrescenta-se a sobrerrepresentação das mulheres em setores menos produtivos, como a educação, a saúde e o trabalho doméstico, com maiores déficits de trabalho decente, o que expõe as trabalhadoras de forma mais pronunciada a riscos psicossociais e ergonômicos.
Por sua vez, Gina Magnolia Riaño Barón, secretária-geral da OISS, destacou que “é imperativo que as políticas de segurança e saúde no trabalho reconheçam as diferenças biológicas, sociais e culturais entre mulheres e homens para aplicar medidas eficazes de prevenção e proteção.
O relatório propõe uma série de recomendações fundamentais para promover a integração da perspectiva de gênero na SST na Ibero-América, incluindo formação em igualdade de gênero para empregadores e trabalhadores, pesquisa com perspectiva de gênero, maior representação das mulheres nos comitês de segurança e saúde no trabalho, proteção da maternidade, estabelecimento de protocolos contra casos de violência e assédio, bem como a implementação de medidas de prevenção que considerem as diferenças biológicas e outras que facilitem a conciliação entre o trabalho e a vida pessoal, entre outras.
Com esta publicação, a OIT e a OISS reafirmam o seu compromisso de continuar a promover iniciativas que contribuam para a construção de ambientes de trabalho mais seguros, equitativos e inclusivos na América Latina, caminhando rumo à justiça social para todas as pessoas.