É preciso assegurar um Carnaval com trabalho decente
Grandes eventos, como o Carnaval, geram renda e trabalho, direta e indiretamente, para milhares de pessoas, mas expõem outras tantas ao risco de trabalho precário, acidentes, violência, trabalho infantil e exploração sexual.
17 de fevereiro de 2023
Brasília– Grandes eventos esportivos, artísticos e culturais, e festas populares, como o Carnaval, são uma força motriz da economia, envolvem orçamento vultosos para sua organização e, geram emprego e renda, direta e indiretamente, para milhares de pessoas.
Com base nos dados da PNAD Contínua do IBGE, o Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil estima que o setor cultural empregou cerca de 5 milhões de pessoas em 2021, o que correspondente 5,5% da ocupação total. O número é 11,12% menor do que o registrado em 2019, ano anterior ao início da pandemia da COVID-19, quando o setor empregava 5,5 milhões de pessoas.
Segundo o IBGE, as empresas classificadas nas atividades culturais movimentaram 608 bilhões de reais em 2019.
Oportunidades, desafios e trabalho decente no setor cultural
Em 2020, as atividades culturais foram fortemente atingidas pelas medidas necessárias para conter a pandemia, tais como as restrições à aglomeração de pessoas, suspensão de atividades e fechamento temporário de locais.As informações do ano de 2021 referentes à análise do perfil das trabalhadoras e dos trabalhadores do setor cultural revelam que:
- As mulheres respondem por praticamente a metade dos postos de trabalho das atividades culturais (49,1%), enquanto no total da ocupação desta participação é menos representativa (41,5%).
- Na cultura, 45% das pessoas ocupadas era de cor ou raça preta ou parda, enquanto, no geral, era de 53,5% .
- O nível de instrução da população ocupada no setor cultural era mais elevado que o observado entre as pessoas ocupadas no mercado de trabalho em geral, sobretudo entre o segmento com nível superior completo: 32,0% versus 23,0% (diferença de 9 pontos percentuais a mais na área cultural).
- Tal diferença explica, em parte, a menor representatividade de pessoas trabalhadoras pretas ou pardas nas atividades culturais, já que, historicamente, a população branca possui uma proporção muito maior com nível superior completo.
- O trabalho por conta própria é a principal categoria de ocupados no setor cultural e responde por quase a metade do total – 2,4 milhões, o correspondente a 47,4%. Vale ressaltar que o maior contingente de trabalhadores(as) por conta própria, (1,5 milhão) não possuíam CNPJ.
- O emprego no setor privado com carteira assinada representava 33,5%, sem carteira 11,5%, e empregadores totalizavam 4,2%.
- A informalidade no setor cultural era de 44%, ligeiramente acima da taxa de informalidade no conjunto dos setores de atividade econômica (42%).
Crianças e adolescentes são particularmente vulneráveis ao risco de trabalho infantil, violência e exploração sexual. Durante as festas de Carnaval e grandes eventos, é comum ver crianças e adolescentes trabalhando como vendedores ambulantes, catadores de latinhas e guardadores de carros, dessa forma expostas a abusos físicos e sexuais, e a acidentes.
"A crescente demanda por atividades de entretenimento, arte e cultura, inclusive as relacionadas aos grandes eventos, como o Carnaval, cria oportunidades para empreendedores e geração de empregos. Isso contribuiu para a inclusão social e o desenvolvimento geral. Mas é preciso assegurar que nesse processo não ocorram violações dos direitos humanos e trabalhistas, a exemplo do trabalho infantil, do tráfico de pessoas para fins de trabalho análogo ao escravo, da exploração e do abuso sexual.”, disse Vinícius Pinheiro, diretor do Escritório da OIT no Brasil.
A OIT acompanha no plano internacional as boas e inovadoras práticas de proteção social para o trabalho no setor cultural. Por intermédio do diálogo social é fundamental adaptar os regimes de proteção social às características dos trabalhadores e das trabalhadoras do setor, para garantir proteção social, trabalho decente e direitos trabalhistas.
Isto é trabalho decente
Formalizado pela OIT em 1999, o conceito de trabalho decente significa promover oportunidades para que homens e mulheres obtenham um trabalho produtivo e de qualidade, em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humanas, sendo considerado condição fundamental para a superação da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a garantia da governabilidade democrática e o desenvolvimento sustentável.O trabalho decente é um conceito central para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas, em especial o ODS 8 , que busca “promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos”.