View of Bangkok’s skyline and a lake, with a circular display of international flags and signage for the 2026 IMF and World Bank Annual Meetings in the foreground.

Declaração da OIT para as Reuniões Anuais de 2026 do FMI e do Grupo Banco Mundial

Crescimento da produtividade deve beneficiar as pessoas

Em uma declaração ao Comitê de Desenvolvimento e ao Comitê Monetário e Financeiro Internacional, por ocasião das Reuniões Anuais de 2026, o diretor-geral da OIT, Gilbert F. Houngbo, defende políticas que assegurem uma distribuição mais ampla dos ganhos de produtividade, inclusive daqueles gerados pela inteligência artificial, fortalecendo a renda das pessoas trabalhadoras, a qualidade dos empregos e a proteção social e promovendo economias inclusivas e resilientes.

12 de outubro de 2026

Bangkok, Thailand. IMF/World Bank Group 2026 Annual Meetings. © World Bank Group
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Sumário Executivo

  • Os principais indicadores do mercado de trabalho têm se mantido relativamente estáveis, mas essa estabilidade encobre fragilidades subjacentes. Choques, como os efeitos do conflito no Oriente Médio, estão sendo absorvidos não apenas pelo aumento do desemprego, mas também pela redução das contratações e da renda real, pela persistência da informalidade e pela deterioração da qualidade dos empregos e das condições de trabalho.
  • Os ganhos de produtividade não alcançando de forma consistente as pessoas trabalhadoras. Em todo o mundo, a diferença entre a produtividade e a renda das pessoas trabalhadoras permanece expressiva, especialmente nos países de renda baixa. Embora essa diferença tenha diminuído durante um período, os avanços posteriores na sua redução foram limitados e, nos países de renda alta, ela aumentou.
  • O próprio crescimento da produtividade tem sido mais fraco onde é mais necessário. Os países de renda baixa continuam a enfrentar grandes e persistentes diferenças de produtividade, o que limita as possibilidades de melhorias sustentadas nas condições de vida e nos empregos.
  • A concentração de mercado pode ser um dos fatores que limitam a distribuição ampla dos ganhos de produtividade. As pequenas e médias empresas (PMEs), que concentram uma parcela significativa do emprego, frequentemente enfrentam diferenças persistentes de produtividade e desvantagens no acesso a financiamento, tecnologia e mercados, enquanto a atividade econômica e o capital se concentram, cada vez mais, em um número relativamente pequeno de grandes empresas, inclusive no setor de tecnologia.
  • Ao mesmo tempo, o poder de negociação limitado dos trabalhadores e trabalhadoras, a baixa cobertura da negociação coletiva e os desequilíbrios no mercado de trabalho podem restringir o crescimento dos salários, especialmente para mulheres, jovens e trabalhadores e trabalhadoras rurais. A inteligência artificial (IA) pode reforçar algumas dessas dinâmicas e, em muitos países em desenvolvimento, as pressões por ajustes associadas à IA podem surgir antes que seus benefícios para a produtividade se concretizem plenamente.
  • Esses desequilíbrios são macrocriticamente relevantes. A predominância de empregos de baixa remuneração e baixa produtividade pode limitar o desenvolvimento de competências, a demanda interna e a base tributária, além de deixar as famílias mais vulneráveis a choques. Quando os ganhos do crescimento não são amplamente compartilhados, a confiança nas instituições e a coesão social também podem ser abaladas, dificultando a continuidade das reformas. Por isso, instituições sólidas do mercado de trabalho são parte das bases de um crescimento resiliente e inclusivo.
  • As políticas públicas podem ajudar a garantir que os ganhos da transformação econômica alcacem uma parcela mais ampla da sociedade. O respeito aos direitos no trabalho, a negociação coletiva e salários mínimos adequados, políticas de concorrência e de mercado de trabalho que ampliem as opções dos trabalhadores e trabalhadoras, o apoio às PMEs no acesso a financiamento e tecnologia e uma proteção social financiada de forma sustentável podem contribuir para que o crescimento da produtividade se traduza em melhores condições de vida para uma parcela mais ampla da população, preservando os incentivos à inovação e ao investimento.
  • As instituições financeiras internacionais têm um papel importante a desempenhar. A distribuição dos ganhos de produtividade, as mudanças nas estruturas de mercado e a qualidade dos empregos merecem maior atenção na análise macroeconômica, nas recomendações de políticas e, quando pertinente, na elaboração de programas. Uma maior atenção aos direitos no trabalho e às instituições do mercado de trabalho também pode ajudar a garantir que as reformas fortaleçam, em vez de enfraquecer, as bases do crescimento inclusivo. O foco renovado do Grupo Banco Mundial no emprego oferece uma oportunidade concreta de apoiar empregos que aumentem a produtividade, a renda e as competências. A continuidade da colaboração entre a OIT e o Grupo Banco Mundial na mensuração do emprego e na incorporação da qualidade dos empregos aos indicadores de desenvolvimento representa um passo importante nessa direção.
  • Em última análise, a estabilidade econômica e a justiça social estão estreitamente ligadas. O crescimento da produtividade que se traduz em melhores rendas, empregos que permita às pessoas aprender e progredir e instituições que dão voz às pessoas trabalhadoras e às empresas são bases importantes para economias resilientes e sociedades inclusivas.

O panorama global

Desde as Reuniões de Primavera, os efeitos do conflito no Oriente Médio, por meio da alta dos preços da energia, dos alimentos e dos fertilizantes, de perturbações no transporte marítimo e nas cadeias de suprimentos e de novas pressões inflacionárias, têm agravado um cenário já marcado pelo elevado endividamento público, pela fragmentação do comércio e pela margem limitada de atuação das políticas públicas.

Como a OIT destacou em abril de 2026, as consequências desses choques para o mercado de trabalho tendem a se manifestar de forma gradual e assimétrica. O ajuste ocorre não apenas por meio do desemprego, mas também pela redução das contratações, pela queda dos salários reais, pelo aumento da informalidade e pela deterioração das condições de trabalho. As taxas gerais de desemprego podem permanecer estáveis mesmo quando diminui a capacidade das pessoas trabalhadoras e das empresas de resistir a novos choques. Os impactos recaem de forma desproporcional sobre famílias de baixa renda, trabalhadores e trabalhadoras informais e trabalhadores migrantes, jovens e micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). Cerca de 2,1 bilhões de trabalhadores e trabalhadoras, aproximadamente 58% da força de trabalho mundial, permanecem em empregos informais, e a redução gradual da informalidade, que, historicamente, acompanhou o crescimento econômico estagnou (ver "Employment and Social Trends 2026, World of Work series").

Produtividade e distribuição

O crescimento da produtividade é a base da melhoria das condições de vida, mas seus benefícios dependem de onde os ganhos de produtividade ocorrem e de como são distribuídos entre capital e trabalho, entre empresas e entre trabalhadores e trabalhadoras.

A produtividade do trabalho em nível mundial aumentou nas últimas duas décadas, mas os avanços têm sido muito desiguais. O crescimento da produtividade foi mais acentuado nas economias de renda média, impulsionado, em grande medida, pela China e pela Índia, enquanto muitos países de renda baixa continuam a enfrentar grandes e persistentes diferenças de produtividade. Reduzir essa diferença exige investimentos contínuos em infraestrutura, competências e capacidade produtiva, além de espaço fiscal e financiamento para o desenvolvimento que viabilizem esses investimentos.

Há muito em jogo, pois o crescimento da produtividade continua sendo um poderoso motor de melhoria das condições de vida. No entanto, para que os ganhos de produtividade se traduzam em maior renda para os trabalhadores e as trabalhadoras, depende de como esses ganhos são distribuídos. Grandes desigualdades na renda do trabalho persistem em muitas economias, e a transmissão dos ganhos de produtividade para a remuneração tem se enfraquecido em alguns países. Sem políticas adequadas, esses padrões podem se consolidar ainda mais à medida que as economias se desenvolvem.

Concentração de mercado, PMEs e inteligência artificial

A fraca transmissão dos ganhos de produtividade às pessoas trabalhadoras reflete, em parte, a distribuição do emprego entre as empresas. Um conjunto crescente de evidências, provenientes de países de renda alta e, cada vez mais, de economias em desenvolvimento na América Latina e na Ásia, mostra que, onde as pessoas trabalhadoras têm opções limitadas de emprego, a concentração do mercado de trabalho e condições menos favoráveis de negociação podem restringir o crescimento dos salários.Uma nova análise da OIT que abrange mais de 40 países também aponta uma relação entre a concentração do emprego e a desigualdade salarial, com implicações particularmente relevantes para as economias em desenvolvimento. Mulheres, trabalhadores jovens e trabalhadores e trabalhadoras rurais tendem a estar mais expostos, de modo que esses desequilíbrios podem agravar as desigualdades existentes. Instituições sólidas do mercado de trabalho, incluindo a negociação coletiva e salários mínimos fixados em níveis adequados, podem ajudar a atenuar esses efeitos.

A estrutura das empresas também importa. As micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) respondem por uma parcela significativa do emprego mundial, mas frequentemente enfrentam diferenças persistentes de produtividade e dificuldades de acesso a financiamento e tecnologia. Ao mesmo tempo, a atividade econômica e o capital estão se concentrando em um número relativamente pequeno de grandes empresas, inclusive no setor de tecnologia. Isso pode dificultar que empresas menores e trabalhadores e trabalhadoras se beneficiem plenamente dos ganhos de produtividade.

A inteligência artificial pode reforçar algumas dessas dinâmicas. Cerca de um quarto do emprego mundial está em ocupações expostas à IA generativa, com maior exposição entre as mulheres nos países de renda alta. As evidências disponíveis até o momento sugerem que a IA tem maior probabilidade de transformar tarefas e empregos do que de eliminá-los em larga escala, mas seus benefícios e custos de adaptação podem ser distribuídos de forma desigual. A concentração do desenvolvimento da IA em um pequeno número de empresas e países pode ampliar ainda mais as diferenças existentes, a menos que seus ganhos de produtividade sejam amplamente compartilhados (ver “A moment of choice: Harnessing artificial intelligence for decent work, Report of the ILO Director-General”).

Em muitos países em desenvolvimento, as pressões por ajustes associadas à IA podem surgir antes que seus benefícios para a produtividade se concretizem plenamente. Uma pesquisa conjunta da OIT e do Banco Mundial mostra que, nos países de renda baixa, muitos trabalhadores e trabalhadoras cujos empregos poderiam se beneficiar da IA não têm acesso regular a computadores e a uma conexão confiável à internet, enquanto aqueles trabalhadores em ocupações mais expostas à automação tendem a já estar conectadas. Isso significa que os efeitos disruptivos podem surgir mais rapidamente do que os ganhos de produtividade, ampliando potencialmente as desigualdades dentro e entre países. As empresas menores podem enfrentar limitações semelhantes quando o acesso a financiamento, infraestrutura digital e competências é limitados. A IA oferece, portanto, um potencial concreto para aumentar a produtividade, mas seus ganhos precisam ser amplamente compartilhados entre trabalhadores, trabalhadoras e empresas, especialmente as MPMEs.

Da distribuição dos ganhos à qualidade dos empregos e à coesão social

Empregos de baixa remuneração e baixa produtividade podem absorver a mão de obra excedente, mas também podem limitar o desenvolvimento de competências, a demanda interna e a base tributária, além de deixar as famílias mais vulneráveis a choques. Trabalhadores e trabalhadoras têm maior propensão a investir em novas competências quando são recompensadas com melhor remuneração, segurança e perspectivas profissionais. Os primeiros empregos, por sua vez, moldam as expectativas das pessoas jovens e sua confiança no futuro. Essas questões ganham importância à medida que as mudanças tecnológicas e a IA transformam os empregos de entrada no mercado de trabalho e as trajetórias profissionais. Investir na qualidade dos empregos, em competências, na proteção social e em PMEs produtivas faz parte, portanto, da fundamentação macroeconômica para promover o crescimento.

As consequências vão além da economia. Quando os ganhos do crescimento não são amplamente compartilhados, a confiança nas instituições e a coesão social podem ser abaladas, dificultando a continuidade das reformas. Instituições eficazes, o Estado de Direito, o respeito aos direitos no trabalho, organizações representativas de empregadores e de trabalhadores e o diálogo social são fundamentais para garantir que trabalhadores, trabalhadoras e as empresas de todos os portes possam participar efetivamente da vida econômica e se beneficiar de seus ganhos.

As normas internacionais do trabalho e os direitos no trabalho são centrais para essa relação. Evidências da OIT indicam que o enfraquecimento da liberdade sindical e dos direitos de negociação coletiva está associado à redução da participação da renda do trabalho. A proteção social desempenha um papel semelhante: ao reduzir a vulnerabilidade e a desigualdade e investir nas pessoas, a proteção social fortalece capacidade das pessoas de trabalhar, obter renda e participar da vida econômica e social.

O caminho a seguir: políticas e instituições para ganhos de produtividade compartilhados

Essas transformações tornam as instituições do mercado de trabalho e as políticas voltadas a mercados justos e competitivos mais importantes do que nunca. O respeito às normas internacionais do trabalho e aos direitos no trabalho, aliado à negociação coletiva e a salários mínimos adequados, definidos por meio de processos baseados em evidências e no diálogo social, pode fortalecer a transmissão dos ganhos de produtividade para a renda dos trabalhadores e trabalhadoras. Políticas de concorrência, medidas que ampliem as opções de emprego de trabalhadores e trabalhadoras e apoio que permita às PMEs acessar financiamento, competências e tecnologia podem ajudar a garantir que os ganhos de produtividade sejam gerados e compartilhados de forma mais ampla.

Um ambiente favorável às empresas sustentáveis é igualmente importante. Reduzir a desigualdade de produtividade das PMEs exige melhor acesso a financiamento, competências, práticas de gestão e tecnologia, incluindo acesso justo a plataformas digitais e ferramentas de IA. O desenvolvimento de competências e a aprendizagem ao longo da vida são essenciais para ajudar trabalhadores, trabalhadoras e as empresas a se adaptar, mas medidas voltadas apenas à oferta não serão suficientes: elas devem ser acompanhadas de políticas que apoiem o investimento, a produtividade e a criação de empregos decentes em larga escala, especialmente nos países em desenvolvimento. Um setor de PMEs mais forte e produtivo também pode ampliar a base tributária e apoiar investimentos em proteção social.

Os marcos macroeconômicos e fiscais devem preservar os investimentos em proteção social, competências e políticas ativas de mercado de trabalho, mesmo quando choques e níveis elevados de endividamento restringem os orçamentos. Uma tributação justa e progressiva e a formalização podem ampliar a base de arrecadação, enquanto a cooperação tributária internacional será fundamental para financiar a proteção social à medida que a digitalização e a IA pressionam as contribuições e as receitas tributárias

O FMI tem um papel importante a desempenhar. A distribuição dos ganhos de produtividade, as mudanças nas estruturas de mercado e a qualidade dos empregos são fundamentais do ponto de vista macroeconômico: influenciam o potencial de crescimento, a sustentabilidade fiscal, a eficácia da transmissão dos efeitos das políticas e a aceitação social das reformas. Dar maior atenção a essas dimensões na análise macroeconômica, nas recomendações de políticas e, quando pertinente, na elaboração de programas, com base nos conhecimentos especializados da OIT e dos parceiros sociais, ajudaria a garantir que a estabilização e as reformas fortaleçam, em vez de enfraquecer, as bases do crescimento inclusivo.

O foco renovado na qualidade dos empregos no âmbito do financiamento para o desenvolvimento, inclusive no Grupo Banco Mundial, representa uma oportunidade concreta. De fato, o financiamento para o desenvolvimento deve buscar apoiar empregos que aumentem a produtividade, melhorem a renda e as perspectivas, desenvolvam competências e fortaleçam a voz de trabalhadores e trabalhadoras, além de apoiar as pequenas e médias empresas, que empregam a maioria das pessoas. A continuidade da colaboração entre a OIT e o Grupo Banco Mundial para aprimorar a mensuração do emprego e incorporar a qualidade dos empregos aos indicadores de desenvolvimento representa um passo importante rumo a abordagens mais equilibradas e relevantes para a formulação de políticas sobre o desempenho do mercado de trabalho.

A OIT foi fundada na convicção de que a paz duradoura deve se apoiar na justiça social. Isso depende de como os ganhos de produtividade e das mudanças tecnológicas são compartilhados hoje. O crescimento da produtividade que se traduz em melhores rendas, empregos que permitem às pessoas aprender e progredir e instituições que dão voz às pessoas trabalhadoras e às empresas não são aspectos secundários do crescimento e da estabilidade econômica. Estão entre as bases importantes de economias resilientes e sociedades inclusiva.