Fátima Laine Sousa Santos segura um cesto feito de palha de  carnaúba, em ambiente externo, e ao fundo se vê uma uma palmeira de carnaúba e vegetação com o céu azul no Piauí

Dia Internacional da Mulher

Nosso artesanato nos empodera

A artesã Fátima Laine Sousa Santos mora em Campo Maior, no interior do Piauí, em uma região agrícola onde os meios de subsistência dependem em grande parte da carnaúba, uma palmeira nativa do Brasil e cujas folhas são usadas para produzir uma cera para as indústrias de beleza, alimentos e automotiva. Com apoio de um programa de capacitação da OIT, ela agora faz parte de um grupo de mulheres que trabalha como artesãs da carnaúba. O programa faz parte do "Plano de Promoção do Trabalho Decente na Cadeia Produtiva da Carnaúba" da OIT. O projeto é financiado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Nesse relato, Fátima nos conta mais sobre sua vida e compartilha sua perspectiva sobre o mundo do trabalho.

7 de março de 2025

A artesã piauiense Fátima Laine Sousa Santos segura um cesto feito de palha de carnaúba, em ambiente externo, e ao fundo se vê uma uma palmeira de carnaúba. © Maria Rita Freitas dos Santos

A palmeira carnaúba sempre fez parte da minha vida. Mas um programa de capacitação em artesanato transformou minha vida, me permitindo ter uma vida com condições decentes para mim e meus filhos. Hoje, pertenço a um grupo de mulheres comprometidas que trabalham duro para preservar tradições e inovar com este ofício.

Durante a minha infância, a principal atividade do meu pai era a extração de folhas de carnaúba para produção de cera. Essa era a principal fonte de renda da nossa família.

Na nossa comunidade, todos participavam. Os homens coletavam as folhas, enquanto as mulheres trançavam a palha para fazer vassouras.

Quando meu pai ainda era casado com minha mãe, eu era jovem demais para ajudar. Mais tarde, quando meu pai se casou novamente, minha irmã e eu ajudávamos levando para casa os burros que carregavam as sacas com as folhas de carnaúba. Minha madrasta então processava as folhas.

Eu cresci nesse ambiente, sempre cercada pela carnaúba. Vi alguns itens feitos com ela, como esteiras e cestos, mas na minha família, a tradição de fazer artesanatos com a palha da carnaúba foi se esvaindo com o tempo.

Fátima Laine Sousa Santos está sentada na varanda da frente tecendo a palha  de carnaúba para artesanato. Ela olha para suas mãos, concentrando-se em seu trabalho.
© Mayara Martins - MPT/PI
© Mayara Martins - MPT/PI
Eu sempre soube do artesanato de carnaúba, principalmente do estado do Ceará, e me perguntava por que não fazíamos o mesmo em nosso estado, o Piauí. (Brasil, 2025)

Mesmo quando eu era jovem demais para ajudar, lembro-me de acompanhar meu pai aos carnaubais. Eu brincava nas folhas colhidas com minha irmã enquanto meu pai trabalhava.

Mas o trabalho do meu pai era muito pesado. Um dos maiores desafios era começar o trabalho cedo pela manhã para evitar o sol intenso.

Toda sexta-feira, meu pai esperava na rodovia por um caminhão para transportar as vassouras para a feira. Ele tinha que viajar durante a noite para vendê-las. E mesmo assim, os produtos eram vendidos a preços muito baixos.

Um retrato de Fátima Laine Sousa Santos. Ela está sorrindo com sua filha pequena ao lado de uma mesa exibindo bolsas e cestos artesanais feitos com a palha da  carnaúba.
© Mayara Martins - MPT/PI
© Mayara Martins - MPT/PI
Espero que meus filhos se orgulhem da minha coragem e vejam que meus sacrifícios foram para um propósito maior. Quero que eles levem adiante as lições de resiliência e trabalho duro. (Brasil, 2025)

Eu sempre soube do artesanato de carnaúba, principalmente do estado do Ceará, e me perguntava por que não fazíamos o mesmo em nosso estado, o Piauí.

Um dia, meu pai me enviou fotos de artesanatos feitos com palha de carnaúba e me disse que haveria um curso sobre como tecer palha de carnaúba.

Na época, ele era um representante sindical e tinha ouvido falar sobre um projeto da OIT revivendo essa técnica e que oferecia um programa de capacitação. Ele me perguntou se eu achava que conseguiria trabalhar com isso. Desde o começo, fiquei interessada.

Eu imediatamente vi uma oportunidade. Eu queria responder minhas próprias perguntas e provar que poderíamos construir algo valioso a partir de nossos recursos locais.

Antes de trabalhar com artesanato de carnaúba, eu enfrentava dificuldades financeiras, principalmente depois que tive meus filhos.

Fátima Laine Sousa Santos
Artesã

Antes de trabalhar com artesanato de carnaúba, eu fazia outros tipos de artesanato. No entanto, minha renda principal vinha de programas de proteção social do governo e da venda de bolos e doces caseiros.

Mas sempre enfrentava dificuldades financeiras, principalmente depois que tive minha filha e meu filho. Houve momentos em que tive que escolher entre reinvestir no meu negócio ou comprar itens essenciais para meus filhos. Às vezes, eu ganhava o suficiente; outras vezes, não. A instabilidade me causou muito estresse e ansiedade.

Desde o início do projeto da OIT, nos disseram que não seria apenas sobre artesanato. O projeto tinha objetivos e aspirações maiores para o futuro.

Cestas, bolsas e objetos decorativos feitos com a palha de carnaúba são exibidos em uma mesa. Na parede acima da mesa, fotos mostram os grupos de artesãs.
© Henna Bruna
© Henna Bruna
Aprender as técnicas do trançado veio naturalmente para mim. A parte mais desafiadora para mim foi trabalhar em peças que exigiam costura à máquina. (Brasil, 2025)

No projeto, aprendemos muito. Elisângela, a instrutora, veio até nossa comunidade e passou uma semana conosco. No começo, foi minha curiosidade sobre o potencial do artesanato de carnaúba que me motivou. Mas, conforme aprendi mais, fiquei empolgada para criar algo do começo ao fim. Aprendemos a fazer cestas usando diferentes tipos de tranças. Quando finalmente aprendi as técnicas e vi os produtos acabados feitos com minhas próprias mãos, me senti vitoriosa.

Durante o curso de treinamento, vi muitas mulheres talentosas desistirem, mas sempre acreditei no projeto. Pude ver o seu potencial além das dificuldades iniciais.

Algumas mulheres abandonaram o curso na primeira semana, dizendo que não se sentiam conectadas com ele. Outras se perguntavam se isso realmente iria funcionar ou se estávamos investindo tempo e dinheiro em algo que não daria certo.

A incerteza mexeu com as emoções de todas no começo. Mas as que ficaram realmente se identificaram com o artesanato e ficaram muito animadas. No final do curso, já tínhamos começado a receber encomendas para nossos artesanatos.

Fátima Laine Sousa Santos está em frente a uma exposição de produtos artesanais de carnaúba trançados em um evento indoor. Outra participante do evento está ao lado dela e sorri.
© Jade Scarlato Astur
© Jade Scarlato Astur
Essa experiência me transformou. Ela me tirou de uma bolha de desesperança e me deu um senso de propósito. (Brasil, 2025)

Mais tarde, Elisângela, nossa instrutora, tornou-se a coordenadora do nosso grupo de artesãs e hoje é a presidente da associação.

Hoje, somos um grupo de mulheres comprometidas que trabalham duro para preservar as tradições e inovar neste ofício.

Temos um forte vínculo, especialmente entre aquelas que fizeram o primeiro curso juntas. Nós apoiamos umas às outras. Ver esse tipo de encorajamento dentro do grupo é muito poderoso. Desde então, treinamos mais pessoas, mas nosso grupo inicial permaneceu fortemente conectado.

Quando começamos a trabalhar, nossos maiores desafios eram a falta de recursos para comprar os materiais necessários e a incerteza sobre a venda dos nossos produtos.

Agora, o que mais precisamos é de apoio para comercializar nossos produtos de forma sustentável. Precisamos de melhor acesso a mercados além das feiras locais, pois elas vêm com altos custos e incertezas.

Nos apoiar vai além de gerar renda. Empodera mulheres, fortalece comunidades e eleva as tradições locais.

Se eu fosse contar esta experiência aos meus futuros netos, eu falaria sobre a vitória, não só a minha, mas a de todo o grupo e da nossa comunidade.


Fátima Laine Sousa Santos
Artesã

Para mim, essa experiência mudou tudo. Quando comecei o artesanato, fui diagnosticada com ansiedade severa e estava tomando remédios. Eu mal saía de casa. Mas o artesanato me tirou daquela bolha.

Depois, meu médico percebeu que eu não precisava mais da medicação. Comecei a socializar, viajar e participar de feiras. Agora me sinto mais confiante e determinada.

As pessoas pensam que eu sempre fui assim, mas foi preciso muito preparo e superação de barreiras psicológicas.

A carnaúba é muito mais do que uma planta. Para mim, a carnaúba simboliza resiliência, força e sobrevivência. Me vejo refletida em sua capacidade de resistir e prosperar apesar das dificuldades.

Se eu fosse contar esta experiência aos meus futuros netos, eu falaria sobre a vitória, não só a minha, mas a de todo o grupo e da nossa comunidade.

Eu contaria a eles como o artesanato da carnaúba se tornou uma profissão reconhecida e digna. E como permitiu que tantas mulheres ganhassem uma vida decente.

Dados e fatos

  • O Brasil é o principal produtor de cera de carnaúba, extraída das folhas da carnaúba, palmeira nativa do Nordeste do país. A cera é amplamente utilizada na indústria, principalmente nos setores de cosmético, automotivo, farmacêutico e alimentício.
  • As folhas da carnaúba também são utilizadas na criação de artesanato com a palha da carnaúba. Na região onde vive Fátima, esta tradição quase desapareceu.
  • Um programa de capacitação da OIT, desenvolvido em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e a Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), reviveu o ofício, beneficiando Fátima e outras 30 mulheres no estado do Piauí, no nordeste do Brasil.
  • A iniciativa parte do projeto da OIT “Plano de Promoção do Trabalho Decente na Cadeia Produtiva da Carnaúba”, financiado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), órgão vinculado ao Ministério Público Federal.
  • A produção de cestaria e sacolas com a palha de carnaúba já está consolidada, com design e identidade diferenciados. Muitas das mulheres viajaram pelo Brasil para participar de feiras e eventos, e alguns de seus produtos foram vendidos para clientes na Colômbia e nos Estados Unidos.
  • Os dois grupos de mulheres artesãs, “Curicacas” e “Natupalha”, foram treinados para criar e gerir as suas redes sociais e plataformas de e-commerce, e cada um tem a sua própria conta no Instagram: @usecuricacas e @natupalha.
  • O sucesso do projeto da OIT inspirou parceiros locais a mobilizar outros grupos de mulheres para reavivar a tradição ancestral do artesanato com a palha da carnaúba.

Entrevista com Edno Moura, procurador do Trabalho, Ministério Público do Trabalho (MPT)

Entrevista em video em português com Edno Moura, Procurador do Trabalho, Ministério Público do Trabalho (MPT), Brasil

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