ILO Monitor: OIT alerta para recuperação incerta e incompleta

Comunicado de imprensa | 30 de Junho de 2020
Fotografia de cabelereira a cortar cabelo a um homem. Ambos usam máscara de proteção individual
A análise mais recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre o impacto da COVID-19 no mercado de trabalho revela que o seu impacto no mundo do trabalho foi mais severo do que o previsto e propõe três cenários para o segundo semestre de 2020.

O número de horas de trabalho perdidas em todo o mundo no primeiro semestre de 2020 foi significativamente pior do que o previsto, enquanto que a recuperação altamente incerta no segundo semestre do ano não será suficiente para voltar aos níveis pré-pandemia, mesmo no melhor cenário, e existe um risco de continuar a perda de empregos em larga escala, alerta a OIT.

De acordo com a 5ª edição da ILO Monitor: COVID-19 e o mundo do trabalho, verificou-se uma queda de 14% no horário global de trabalho durante o segundo trimestre de 2020, equivalente à perda de 400 milhões de empregos a tempo completo (tendo por base uma semana de trabalho de 48 horas). Este valor constitui um aumento acentuado em relação às previsões da última edição do ILO Monitor (publicado a 27 de maio), que previa uma queda de 10,7% (305 milhões de empregos).

Os novos números refletem o agravamento da situação em muitas regiões nas últimas semanas, especialmente nas economias em desenvolvimento. Por regiões, as perdas de tempo de trabalho no segundo trimestre foram as seguintes: Américas (18,3%), Europa e Ásia Central (13,9%), Ásia e Pacífico (13,5%), Estados Árabes (13,2%) e África (12,1%)*.

A grande maioria dos trabalhadores e trabalhadoras do mundo (93%) vivem em países nos quais continuam encerrados alguns estabelecimentos/locais de trabalho, destacando-se as Américas com as maiores restrições.

Segundo semestre de 2020

A nova edição do ILO Monitor apresenta três cenários possíveis de recuperação para o segundo semestre de 2020: de referência (de base), pessimista e otimista. Salienta que o resultado a longo prazo dependerá da trajetória futura da pandemia e das opções e políticas governamentais.

O cenário otimista pressupõe que a atividades laboral seja retomada rapidamente, aumentando significativamente a procura agregada e a criação de empregos. Com essa recuperação excecionalmente rápida, a perda global de horas de trabalho cairia para 1,2% (34 milhões de empregos a tempo completo).

O modelo de referência (de base) - que pressupõe uma recuperação da atividade económica de acordo com as previsões existentes, o levantamento das restrições do local de trabalho e a recuperação do consumo e do investimento - projeta uma redução nas horas de trabalho de 4,9% (equivalente a 140 milhões de empregos a tempo completo) por comparação com o quarto trimestre de 2019.

O cenário pessimista pressupõe uma segunda vaga da pandemia e o retorno de restrições que retardariam significativamente a recuperação. A consequência seria uma queda nas horas de trabalho de 11,9% (340 milhões de empregos a tempo completo).

Impacto nas mulheres

A 5ª edição do ILO Monitor também constata que as mulheres trabalhadoras foram afetadas desproporcionalmente pela pandemia, criando o risco de se verificar uma reversão dos modestos progressos alcançados na igualdade de género nas últimas décadas e ainda que as desigualdades de género no trabalho sejam exacerbadas.

O grave impacto da COVID-19 nas trabalhadoras está relacionado com a sobrerepresentação das mulheres em alguns dos setores económicos mais afetados pela crise, como o alojamento, a restauração, o comércio e indústria transformadora. Globalmente, quase 510 milhões ou 40% de todas as mulheres empregadas trabalham nos quatro setores mais afetados, em comparação com 36,6% dos homens.

As mulheres também dominam nos setores do trabalho doméstico e de assistência social e de saúde, correndo maior risco de perder o seu rendimento e de infecão e transmissão, e também são menos propensas a ter proteção social.

A distribuição desigual do trabalho não remunerado pré-pandemia também piorou durante a crise, exacerbada pelo encerramento de escolas e serviços de apoio, aumentando a dupla carga de trabalho sobre as mulheres.

Principais desafios no futuro

Embora os países tenham adotado medidas políticas com rapidez e alcance sem precedentes, a 5ª edição do ILO Monitor destaca alguns dos principais desafios daqui para a frente:
  • Encontrar o justo equilíbrio e a sequência adequada entre as intervenções da saúde e económicas e entre as intervenções sociais e políticas para produzir resultados ideais e sustentáveis no mercado de trabalho.
  • Implementar e sustentar intervenções políticas à escala necessária quando existe o risco dos recursos virem a ser cada vez mais limitados.
  • Proteger e promover as condições adequadas tendo em vista os grupos vulneráveis, desfavorecidos e mais afetados, para tornar os mercados de trabalho mais justos e mais equitativos.
  • Garantir a solidariedade e o apoio internacionais, especialmente para os países emergentes e em desenvolvimento.
  • Reforçar o diálogo social e o respeito pelos direitos.
“As decisões que adotamos agora terão eco nos próximos anos e para além de 2030. Embora os países estejam em diferentes fases da pandemia e já muito tenha sido feito, precisamos de redobrar os nossos esforços, se quisermos sair desta crise em melhor forma do que quando ela começou”, afirmou o diretor-geral da OIT, Guy Ryder.

“Na próxima semana, a OIT organiza uma reunião virtual de alto nível, a Cimeira mundial sobre a COVID-19 e o Mundo do Trabalho. Espero que governos, trabalhadores e empregadores aproveitem esta oportunidade para apresentar e ouvir ideias inovadoras, debater sobre as lições aprendidas e apresentar planos concretos para trabalhar juntos para uma recuperação rica na criação de empregos, inclusiva, equitativa e sustentável. Temos todos pela frente o desafio de construir um melhor mundo do trabalho”, concluiu Guy Ryder.

*A 5ª edição inclui números sub-regionais do número de horas de trabalho perdidas no segundo trimestre de 2020, bem como dados regionais para o primeiro trimestre de 2020.

Versão integral da 5ª edição de ILO Monitor em: espanhol; francês; inglês.

OIT-Lisboa
30.06.2020