Culinária, poesia e acolhimento promovem a formação profissional e a inclusão de pessoas LGBTQIA+ no mercado formal de trabalho

Organizado pela OIT, projeto PRIDE forma nova turma de assistentes de cozinha com apoio do MPT, da Firjan SENAI, do Instituto +Diversidade e da Casa Neon Cunha no Rio de Janeiro.

Notícias | 10 de Novembro de 2022


Brasília - 'Gente, cozinha misturada com poesia? O que isso tem a ver?’, pensou intrigada Fernanda Telles, uma mulher trans de 38 anos, ao entrar, numa manhã de setembro, na sala de aula do curso profissionalizante em assistente de cozinha voltado para a comunidade LGBTQIA+, no Rio de Janeiro.

“Não é só você cozinhar. A cozinha é uma arte e a poesia faz parte da arte. Então, você saber falar, você saber dialogar, você ter uma dicção verbal boa dentro de uma cozinha, te ajuda.”, concluiria ela mais tarde.

Fernanda integra o grupo de 40 homens e mulheres trans e travestis que se formaram na primeira turma do curso Cozinha&Voz, no escopo do projeto PRIDE, em uma estratégia combinada para promover o trabalho decente e a inclusão no mercado de trabalho formal de pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Aulas do módulo "Cozinha" com a chef Paola Carosella

A receita é simples! Implementado com o Instituto +Diversidade e a Casa Neon Cunha, o projeto "PRIDE: Promovendo Direitos, Diversidade e Igualdade no mundo do trabalho" impulsiona a inclusão e trabalho decente de pessoas da comunidade LGBTQIA+, com foco prioritário na população trans e travesti.

Entre suas linhas de ação, o projeto replica a metodologia desenvolvida pelo projeto Cozinha&Voz, para capacitar profissionais como assistente de cozinha e desenvolver suas habilidades socioemocionais. Assim, o componente “Cozinha” conta com a coordenação técnica da chef Paola Carosella e centra-se nas aptidões básicas requeridas para o trabalho em uma cozinha de restaurante.

Coordenado pela atriz e poeta Elisa Lucinda e pela atriz e diretora Geovana Pires, o componente “Voz” é composto por oficinas, nas quais as pessoas participantes, por meio da poesia, desenvolvem e aperfeiçoam a inteligência emocional e a comunicação interpessoal para aprender a se comunicar em qualquer contexto profissional, de uma entrevista de emprego a uma apresentação em público.

"Hoje eu me entendo como chef de cozinha em exponencial crescimento e em busca de uma requalificação profissional, para deixar a prostituição", disse Joana Santos Igayara, mulher trans de 46 anos, que participou do curso.

Aulas do módulo "Voz" com as atrizes Elisa Lucinda e Geovana Pires

"Uma das linhas de ação do projeto PRIDE é implementar um programa de qualificação que contemple tanto a qualificação profissional como também uma abordagem de desenvolvimento da expressão e a autoestima, considerando que se trata de uma população em situação de vulnerabilidade que está sujeita a discriminação no mundo do trabalho. Por meio do Cozinha&Voz, o projeto implementa uma abordagem integral que contribui para o acesso ao trabalho decente, que é um direito de todas as pessoas", disse Camila Almeida, coordenadora Nacional do Projeto PRIDE no Escritório da OIT no Brasil.

O estigma e a discriminação generalizada com base na orientação sexual, na identidade de gênero, na expressão de gênero e nas características sexuais negam a igualdade de oportunidades e a garantia dos direitos básicos do trabalho à população LGBTQIA+.

Nesse cenário, as pessoas trans, em particular, enfrentam barreiras sociais, econômicas e culturais ainda maiores para ingressar no mercado de trabalho formal, o que as expõe ao risco de formas perigosas e exploradoras de trabalho, incluindo o tráfico de pessoas para fim de trabalho escravo.

"Por que o Ministério Público do Trabalho volta a sua atuação para promover a empregabilidade desse público? A gente tem dados aqui que a vulnerabilidade que marca essa população é muito intensa. A expectativa de vida média é de 35 anos. A gente está falando de uma expectativa de vida acho que da Idade Média.”, disse Fernanda Diniz, procuradora do Trabalho, do MPT no Rio de Janeiro.

“A gente tendo a oportunidade, tendo a possibilidade de mostrar o nosso trabalho, mostrar quem a gente é para além dos nossos marcadores sociais, e que os nossos marcadores sociais podem contribuir de maneira muito positiva para a sociedade, a gente mostra quem a gente é e para o que veio.’, disse Leonardo Peçanha, mobilizador social, da Casa Neon Cunha.

Formatura da turma

Desde que foi lançado em 2017 – fruto de uma parceria entre a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Ministério Público do Trabalho (MPT) – essa foi a primeira vez que o curso do Cozinha&Voz foi realizado no escopo do projeto PRIDE e com apoio da Firjan SENAI Tijuca, que cedeu parte de suas instalações no Rio de Janeiro para receber as pessoas participantes.

“Além da parte técnica, houve também o acolhimento na oficina de poesia. Foi muito além de uma formação profissional, enfatizando a questão comportamental e o ambiente de se sentir inclusos”, explicou Joselaine Rampini, gerente dos Centros de Referência da Firjan SENAI.

(Com informações da ASCOM da Firjan SENAI
)