Delúbio Soares de Castro (1)
Bernardo Gouthier Macedo (2)
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O programa de formação, qualificação e requalificação
profissional
O intenso processo de reestruturação produtiva porque
passam as economias industriais tem provocado, em todos os lugares,
crescimento do desemprego estrutural: postos de trabalho, outrora protegidos
por diversas regras formais, vêm sendo substituídos aceleradamente pelo
inchaço do chamado setor informal o que, quase sempre, representa
uma degradação das condições de trabalho e a piora das condições de
vida do trabalhador. As fórmulas são conhecidas: downsizing, terceirização,
etc.
Nesse processo, ganharam grande visibilidade as políticas
de requalificação profissional, especialmente importantes e alardeadas
nos Estados Unidos, que visam melhorar as condições de acesso ao mercado
de trabalho em rápida transformação, seja melhorando a qualificação
dos trabalhadores, seja preparando-os para novos tipos de ocupação.
Essa preocupação é recente no Brasil, e o Codefat,
especialmente através da bancada dos trabalhadores, tem procurado impulsionar
essas políticas. Trata-se, evidentemente, de políticas cujo alcance
e eficácia são limitados pelas condições adversas do conjunto da economia,
pois sem crescimento sustentado o máximo que se poderá conseguir será
formar um conjunto de desempregados mais bem qualificados. São, contudo,
iniciativas relevantes, ainda mais pelo fato de colocarem em destaque
o desleixo com que a formação profissional vem sendo tratada no País,
sob a égide do "Sistema S". Portanto, quanto maior for a capacidade
do Codefat, sob um ambiente tripartite, de alavancar essas políticas,
maior será a possibilidade de se constituir alternativa ao sistema oficial,
gerido exclusivamente pelas entidades patronais e de cujo arcaísmo não
sobram dúvidas.
Desde 96, o impulso às políticas de formação profissional
tem ganhado força no âmbito do Codefat, quando foram aplicados pouco
menos de R$ 300 milhões em projetos os mais diversos, inclusive patrocinados
por sindicatos de trabalhadores, que devem cada vez mais disputar esse
espaço, pois o público natural desses programas deve demonstrar a capacidade
de, ele próprio, prover sua aplicação.
Para 97, o orçamento do FAT destinado a esses programas
foi ligeiramente aumentado, mas ainda há muito por ser feito. Nossa
meta é alcançar, no próximo período, pelo menos o público-alvo mais
imediato e óbvio: os beneficiários do seguro-desemprego. Em termos quantitativos,
trata-se de treinar, qualificar e requalificar 4 milhões de trabalhadores/ano,
para o quê seriam necessários recursos da ordem de R$ 1 bilhão no próximo
orçamento. Para que isso seja possível, é fundamental que todos os sindicatos
e associações de movimentos populares, ONGs, etc., habilitem-se e apresentem
programas que, segundo critérios próprios, estimulem a demanda sobre
os executivos municipais, estaduais e federal, especialmente através
das comissões estaduais e municipais de emprego.
A intermediação de mão-de-obra
Este talvez seja o elo hoje por todos considerado o
mais fraco de todo o ainda embrionário Sistema Público de Emprego. O
Sistema Nacional de Emprego-Sine, em suas diversas agências estaduais
conveniadas às respectivas secretarias de trabalho, encontra-se hoje
praticamente desmantelado e incapacitado a atender as demandas dos trabalhadores.
E a demanda básica do desempregado não é a de receber o seguro-desemprego,
benefício temporário e exíguo, mas sim a de conseguir nova ocupação
condizente com a que ocupava anteriormente.
Para isso deveria funcionar adequadamente o sistema
de intermediação, que teria os postos dos Sines como cadastro
de vagas e de trabalhadores em busca de nova ocupação. Mas, como se
sabe, o sistema Sine consegue hoje reinserir no mercado de trabalho
parcela ínfima dos demitidos, e sua baixa credibilidade faz com que
as empresas praticamente o desconheçam quando precisam fazer operações
de recrutamento.
A tarefa de reconstruir esse sistema é prioritária,
se se tem como horizonte a implementação de um sistema público de emprego
digno desse nome. A crise financeira na qual os estados estão imersos
é parcialmente responsável por esse estado de coisas, mas há, combinado,
muita ineficiência e irresponsabilidade administrativa, como fica demonstrado
pelo fato de a maioria dos estados ter tido enormes dificuldades para
celebrar convênios com o Codefat para as diversas atividades de responsabilidade
dos Sines, dificuldade maior ainda para despender os recursos
e cumprir as metas dos convênios. Faz-se necessário aqui uma profunda
rediscussão do sistema, para a qual, novamente, é fundamental a participação
da sociedade civil organizada, especialmente dos sindicatos, diretamente
e através das comissões estaduais e municipais do trabalho.
As informações e pesquisas sobre
o mercado de trabalho
Outra peça-chave do Sistema Público de Emprego é a
pesquisa e disponibilização de informações sobre o mercado de trabalho,
tanto maior quanto mais se fazem presentes e velozes as transformações.
Sem informações básicas, seja do mercado de trabalho (quem são os desempregados,
qual o seu perfil, quantos são, que ocupações vêm demonstrando maior
capacidade de crescimento, quais estão minguando etc.), seja das economias
regionais e locais (apontando as vocações e oportunidades econômicas
em cada ambiente), será virtualmente impossível trabalhar adequadamente
o sistema por nós almejado.
Destaque-se, nesse particular, o papel fundamental desempenhado
pelas PEDs Pesquisa de Emprego e Desemprego elaboradas
em oito regiões metropolitanas através de convênios entre o Dieese e
organismos estaduais de pesquisa (a Fundação Seade, pioneira, em São
Paulo, a Fundação João Pinheiro em Belo Horizonte, etc.). Com metodologia
inovadora e moderna, capaz de captar nuances e particularidades que
escapam às pesquisas oficiais do IBGE (as PMEs), as PED vêm sendo
fundamentais, mesmo que ainda pouco exploradas, para viabilizar a ação,
seja do Codefat, seja das comissões estaduais e municipais de emprego.
O apoio do Codefat, político e financeiro, vem sendo fundamental para
essa bem-sucedida experiência proveniente do meio sindical mas com os
olhos voltados para toda a sociedade.
