Simões L. Competências para a sociedade do conhecimento.
SENAI Brasil, Brasilia, V.9, N. 46, mar.-abr. 2000. p. 6-7
Projeto Estratégio Nacional de Certificação Baseada en Competências
do SENAI-DN tem o objetivo de reorganizar a oferta de educação profissional,
atendendo não só às demandas do mercado, mas, também, às novas exigências
legais determinadas pela nova Lei de Diretrizes de Bases (LDB).
"O retorno à educação integral do homem deve
ser a tônica do próximo milênio. A educação tem-se preocupado
com partes do homem, ora com a moral, ora com a erudição, ora com
a profissionalização e agora volta a olhar o conjunto"
(Alipio Casali, titular de pós-graduação da PUC/SP)
A busca de maior competitividade, por parte das
empresas, com vistas à manutenção ou ampliação dos mercados, vem provocando
novas exigências nos perfis profissionais de mandados. Aliada
a uma sólida base técnico-científica, passam também a ser requeridas
novas capacidades, derivadas da necessidade de adaptação a contextos
produtivos cada vez mais imprevisíveis e dinâmicos. O conteúdo
do trabalho está se alterando: trabalhar passa a significar, cada vez
mais, ser capaz de transferir conhecimentos para distintas situações,
bem como saber gerenciar informações.
Essas exigências vêm afetando diretamente as organicações
que atuam na preparação de profissionais para o mundo do trabalho.
Atento a essas tendências, o SENAI criou o Projeto Estratégico Nacional
Certificação Profissional baseada em Competências, coordenado pela Unidade
de Conhecimento Tecnologia da Educação (Coted).
"Conjugar e harmonizar os complexos aspectos de gestão,
de organização, de inovação tecnológica e de preparação e formação de
novos perfis profissionais são grande desafios colocados para as empresas
ou instituições que queiram manter-se ativas e modernas no contexto
da globalização da economia", afirma o presidente da CNI, deputado
Moreira Ferreira.
Para o diretor-geral do SENAI-DN, José Manuel de Aguiar
Martins, as transformações em curso na Sociedade do Conhecimento
exigem modelos de ensino e de aprendizagem altamente flexíveis
e abrangentes, visando a formação de um trabalhador qualificado de forma
polivalente e, principalmente, com o potencial de aperfeiçãomento continuado,
para que possa atuar nos mais diferentes contextos de trabalho.
- As metodologias e critérios organizacionais valorizados
hoje no SENAI são aqueles que permitem medir, avaliar e gerenciar o
capital intelectual e os ativos intangíveis das organizações.
Ou seja, nos permitem gerir o conhecimento -, assegura.
Maior articulação
As raz es que levaram o SENAI a adotar o enfoque por competência
estão relacionadas às seguintes exigências:
1. maior articulação entre o mundo da educação e
do trabalho, ditada pelo novo paradigma da sociedade do conhecimento.
Ao conceito abastrato de conhecimento, de teor acadêmico, vem
se sobrepor o conceito de conhecimento contextualizado, de caráter mais
pragmático, voltado para a necessidade de identificar e resolver problemas;
2. ampliação das oportunidades de inserção profissional
do trabalhador, através da preparação para perfis mais abrangentes,
focalizados não mais no posto de trabalho, mas visando o alto desempenho
em contextos em constante transformação;
3. renovação do processo de ensino e aprendizagem,
com base no enfoque da competência, sintonizado com as demandas crescentes
a cada vez mais diversificadas das pessoas, numa perspectiva de educação
permanente;
4. reconhecimento e validação de competências, independentemente
da forma como foram adquiridas, para atendimento das novas disposições
legais.
A abrangência e a complexidade deste Projeto, assinala
Martins, exigiu a organização de uma fase piloto que possibilitasse
testar o modelo a ser adotado.
Pontos de partida
"A análise das experiências existentes em termos
de certificação, nos levou a tomar como referência o modelo espanhol
por o considerarmos o mais adecuado às nossas exigências. Mas
introduzimos, como não poderia deixar de ser, algumas modificações en
função do contexto social, econômico e jurídico do Brasil. Nosso
primeiro desafio foi o definir um sistema que tivesse coerência e credibilidade.
De nada serve certificar se o mercado não conferir valor ao processo",
assinala Lúcia Simões, coordenadora do Núcleo de Educação do CIET e
responsável pela elaboração e desenvolvimento do Projeto.
Partindo desta premissa, o sistema foi pautado nas seguintes
bases:
1. Optar por un conceito de competência e por um
modelo de certificação que pudesse atender tanto às características
do mercado de trabalho brasileiro quanto aos marcos legais estabelecidos
pela LDB.
2. Elaborar documentos metodológicos que garantissem
a homogeneidade de procedimentos a serem seguidos pelos Departamentos
Regionais participantes da fase piloto do Projeto.
3. Percorrer todas as fases do processo, de modo
a validar o modelo a ser instituído no SENAI.
4. Assegurar, através de um rigoroso acompahamento
do processo, a coerência do modelo a ser adotado.
Até onde avançamos
Para estabelecer as bases conceituais do modelo, explica
Lúcia, "definimos a competência como o conjunto de conhecimentos,
habilidades e atitudes profissionais que as pessoas podem mobilizar
en situações reais de trabalho". Essa noção engloba as seguintes
dimensões:
-
Competências específicas, que se referem ao domínio
propriamente técnico da atividade profissional.
-
Competências de gestão, que apontam para aspectos
relacionados à capacidade de lidar com situações imprevistas, de
comunicação e de trabalho em equipe.
-
Competências básicas, que remetem aos fundamentos
técnico-científicos relativos a cada Qualificação Profissional.
Con base nas premissas adotadas, foram planejadas
todas as etapas da fase piloto do Projeto:
- Estabelecer uma metodología para identificação
dos perfis profissionais das distintas áreas tecnológicas, desagregando
as competências de cada perfil em Unidades e Elementos.
Unidades e Elementos de Competência são em seguida reorganizados
en Unidades de Qualificação, ou seja, em conjuntos estruturados de competências
com possibilidade de reconhecimento no mercado de trabalho (terminalidade).
- Organização de Comitês Técnicos Setoriais, com
a responsabilidade de estabelecer os perfis profissionais referentes
a uma determinada área tecnológica, constituídos por técnicos das empresas,
dos sindicatos, do próprio SENAI e de especialistas de meio acadêmico.
Os Comitês funcionam, assim, como fóruns consultivos representando os
diversos atores sociais, capazes de identificar os perfis requeridos,
apontanto, inclusive, tendências de curto e médio prazos.
- Definição de uma metodologia para avaliação de competências,
focalizada na capacidade de identificação e de resolução de problemas,
aproximando desta forma o processo de ensino e aprendizagem das reais
condições de trabalho que o profissional vai encontrar.
No estágio atual da fase piloto - que envolve nove Departamentos
Regionais do SENAI das regiões Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul
-, foram instalados Comitês nas áreas de Alementos, Automobilística,
Construção Civil, Eletricidade, Eletroeletrônica, Telecomunicações,
Mecânica de Manutenção, Mobiliário e Têxtil. Cada Comitê traçou
no mínimo um perfil profissional.
Segundo os gestores do Projeto Jocyleide de Lima Silva
e Marcelo Alvares de Sousa, da Coted-DN, os depoimentos apresentados
quanto ao funcionamiento dos Comitês atestam, sem dúvida, o sucesso
desta iniciativa".
Algunas opiniões:
"O trabaho desenvolvido pelo Comitê Técnico Setorial
implantado no Centro Tecnológico do Mobiliário SENAI, de Bento Gonçalves/RS,
além de definir as competências requeridas ao designer de móveis, trouxe
uma aproximação ainda maior entre as empresas movileiras, o meio acadêmico,
os sindicatos, o poder público e o SENAI". (Comitê Técnico
Setorial da Madeira/Mobiliario/RS).
"Foi uma experiência instigante participar do
Comitê Técnico Setorial da Construção Civil para o estabelecimento do
perfil profissional do mestre-de-obras. As reuniões eram desafiadores
e valorizaram a experiência que cada profissional trazia." (Comité
Técnico Setorial de Construção Civil/SP)
Próximas etapas
"Estamos agora trabalhando na fase mais estimulante
desde processo. Como construir um desenho curricular tomando como
referência um perfil profissional baseado em competências? Como
avaliar na ótica da competência? Isto é algo novo para nós...
temos que ser criativos, ousar inventar, se realmente queremos renovar
o processo de ensino e de aprendizagem do SENAI, passando efetivamente
do enfoque do diploma para o enfoque da competência", acrescenta
Lúcia.
A expectativa da coordenação é de que até final de dezembro
todas as etapas do processo tenham sido percorridas. Nessa fase,
será realizado o primeiro balanço do modelo, identificando pontos fortes
e oportunidades para melhoria. A fase seguinte será a do desenvolvimento
do sistema informatizado de instrumentos de avaliação e de expansão
do modelo para todo o SENAI.
Jocyleide e Marelo destacam a importância do envolvimento
e o compromisso dos Departamentos Regionais que estão participando desta
fase experimental. "A seriedade das contribuções recebidas
e o envolvimento dos DR's na elaboração dos documentos metodológicos
foram fatores decisivos para o avanço do trabalho", assinalam.
"Não podemos deixar de frisar também o quanto importante
vem sendo a cooperação técnica que estamos recebendo da Espanha, obtida
por intermédio do empenho e dedicação da Geart et da Agência Espanhola
de Cooperação Internacional (AECI). Há que ressaltar o excelente
trabalho que a Sra. Elena Martín Checa, do Ministério de Trabalho e
de Segurança Social espanhol, vem desenvolvendo com o SENAI. Não
resta dúvida de que muito se aprende como os erros e os acertos dos
outros", assinala Lúcia.
"Tenho a convicção de que, com Este Projeto, o SENAI
está dando um passo decisivo para se alinhar com as exigências da modernidade.
Estamos, na verdade, apenas nos antecipando, como coragem e ousadia,
ao movimento que mais cedo ou mais tarde vai perpassar todas as instituições
que lidam com educação para o trabalho e a cidadania", concluir
Martins.