COVID-19: Proteger as pessoas mais vulneráveis

Cozinha&Voz promove palestra sobre violência de gêneros durante pandemia

Primeira mulher trans militar na ativa na Marinha do Brasil falou sobre violência contra a população transexual

Notícias | 23 de Maio de 2020
Turma do Cozinha&Voz Web participa de palestra sobre violência contra a população transexual.
Brasília – O projeto Cozinha&Voz web recebeu Bruna Benevides, secretária de Articulação Política da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e primeira mulher transexual militar na ativa na Marinha do Brasil, na patente de Segundo-sargento, para uma palestra virtual sobre violência de gêneros, no dia 21 de maio.

A sargento Bruna, de 40 anos, nasceu no Ceará, e migrou para o Rio de Janeiro com 17 anos para fugir da violência por uma mulher trans. Ela ingresso na Marinha pensando em sobreviver. Por anos, Bruna se travestiu de homem para trabalhar em uma carreira nas Forças Armadas, que não aceitava transgêneros. Até que um dia decidiu lutar por seus direitos.

“Tiveram outras mulheres trans antes de mim, mas todas foram aposentadas por incapacidade. Eles também tentaram me afastar. Eu consegui uma liminar na justiça que me garantiu ser a primeira mulher trans a estar na ativa na Marinha do Brasil. ”, disse ela.

Bruna Benevides, secretária de Articulação Política da ANTRA e primeira mulher transexual militar na ativa na Marinha do Brasil
Na turma do Cozinha&Voz Web, todas, todes e todos os 50 alunos e alunas já foram vítimas ou conhecem alguém que já foi vítima da violência, seja psicológica ou física, contra a população transgênero.

“Eu passei pelo constrangimento de uma pessoa me perguntar qual era meu nome antigamente e eu fiquei apavorada, não sabia lidar com isso”, disse Larissa Raniel, de 35 anos, mulher trans e aluna do Cozinha&Voz Web de São Paulo.

Durante a palestra, Bruna Benevides alertou que, de acordo com dados de movimentos sociais ligados à luta da população transgênero, a expectativa média de vida dos(as) transexuais no Brasil é de 35 anos, menos da metade da expectativa de vida do brasileiro, que é de 76 anos, segundo dados do IBGE. Já dados da ONG Transgender Europeo mostram ainda que o Brasil é o país onde mais transexuais são mortos.

Bruna alertou também que, mesmo durante a pandemia da COVID-19, esses números não diminuíram. De acordo com o levantamento feito pela ANTRA, baseado em notícias publicadas pela imprensa, no primeiro quadrimestre de 2020 foram registrados 64 assassinatos de transexuais no Brasil, número maior do que no mesmo período de 2019 (43), 2018 (63) e 2017 (58).

Por causa do aumento da violência, a ANTRA lançou cartilhas que orientam as pessoas trans a se defenderem da violência nas ruas e doméstica.

“A convivência com os pares faz a gente aprender aquilo que a gente cobra tanto dos outros: que nos ouçam. Que a gente possa ouvir umas às outras e que a gente possa construir juntes um futuro melhor”, disse Bruna.

“Por ser a única mulher trans na ativa na Marinha, Bruna faz história na luta contra a transfobia no Brasil, é uma militar militante que abre muitas portas para as que estão vindo e faz reverência as que vieram antes dela. Me fez refletir sobre essa ancestralidade transgênero, sobre essa luta de séculos. Reforçou na sua palestra a importância de colocar em pauta estas vozes sempre silenciadas. ”, disse Geovana Pires, coordenadora-geral do Cozinha&Voz web.

O Cozinha&Voz faz parte de uma ampla iniciativa de promoção do trabalho decente para pessoas em situação de vulnerabilidade, desenvolvida pela OIT e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), com apoio da chef Paola Carosella e da Casa Poema. Criado na forma de aulas presenciais em 2017, o projeto capacita profissionais como assistente de cozinha, promove a empregabilidade de pessoas em situação de exclusão socioeconômica e já beneficiou 314 pessoas em seis estados brasileiros.

Para garantir a capacitação contínua e treinamentos essenciais em tempos de COVID-19, a OIT e o MPT adotaram um plano de contingência para assegurar a profissionalização de alunas e alunos, com um método de aulas online ministradas por meio de ferramenta de videoconferência, conversas virtuais e outras alternativas de conexão. Assim, desde abril, 50 pessoas de Rondônia, São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás, com idades entre 22 e 67 anos, participam da turma do Cozinha&Voz Web, que também conta com o apoio do UNAIDS.