Quebrando paradigmas, derrubando preconceitos: a inclusão de pessoas transexuais no mercado de trabalho
Realizado pela OIT e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), com apoio da chef Paola Carosella e de seu sócio e empresário Benny Goldenberg, projeto de inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade no mercado de trabalho formal conclui sua 2ª edição com grandes resultados.
Janelas e portas abrem e se fecham,
há cortinas dentro que se mesclam,
muitos tecidos que escondem e revelam.
Janelas e portas batem e silenciam,
há grades dentro e por fora,
aberturas e mínimas chances de fuga.
Janelas e portas protegem e iludem,
vidros são limpos e escuros,
há marcas de mãos perto dos trincos. "
Lorelay Claro, de 30 anos, ficou particularmente satisfeita com o aspecto prático do curso: “A gente teve muita experiência na cozinha, experiência de como se portar num local de trabalho, saber como trabalhar com outras pessoas, saber como se portar em praças, como trabalhar em conjunto para que um único trabalho seja bem sucedido, e isso é muito importante para qualquer outro lugar onde você vá trabalhar”.
Indicada para participar do projeto pela Casa 1, ela contou que já estudou hotelaria e que sonha em fazer faculdade de gastronomia para trabalhar em restaurantes, ou até mesmo montar seu próprio negócio. “É muito importante para nós, mulheres transexuais, conseguir ter essa oportunidade para mostrar o nosso talento, mostrar que a gente consegue fazer qualquer tipo de coisa”, destacou Lorelay.
Durante a cerimônia de formatura no TRT, onde as alunas realizaram um recital de poesia e receberam seus certificados, a chef Paola Carosella ressaltou: “Estamos construindo um projeto que pode parecer muito pequeno, de pequeno impacto, mas queremos que seja assim, porque está sendo construído com qualidade”.
Impacto pequeno, mas profundo
O projeto Cozinha & Voz realizou a 1ª edição do curso de assistente de cozinha no final de 2017 e conseguiu encaminhar para o mercado de trabalho cerca de 70% das mulheres travestis e transexuais e homens transexuais que participaram. A iniciativa conta com uma rede de empresas parceiras, como Sodexo, Avon, Arturito, Fitó e Mangiare, que já contrataram formandas.
“[O curso] me trouxe um pouco mais de perspectiva para a minha própria vida, de saber que eu sou capaz”, explicou Yasmin. “Me ajudou muito com a minha auto estima, com a minha dignidade, com o interesse de poder crescer na vida, pois a sociedade nos tira esse direito, esquecendo que a gente existe, resiste e sonha todos os dias com a oportunidade de trabalho, de respeito, com a quebra de preconceitos e paradigmas que a sociedade impõe”.
Atualmente, Yasmin continua fazendo seu tratamento no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD) e deseja estudar pedagogia ou serviço social para poder avançar no trabalho com o público LGBTQ. “Eu só tenho a agradecer a todas as pessoas e instituições envolvidas no projeto, e também ao projeto Recomeço, ao CRATOD e ao Coletivo Mexa, do qual faço parte. Meu maior objetivo é um dia formar uma ONG para o público LGBTQ”, afirmou ela.
Vanessa Holanda foi uma das colegas de Yasmin na 1ª edição do Cozinha & Voz: “Antes do curso, eu não tinha muitas chances de trabalho formal e esperava muito ter uma oportunidade”. Após a formatura, ela foi contratada pela Sodexo, que tem restaurante na Avon. “A resposta da empresa foi extremamente positiva e hoje me sinto muito bem acolhida em meu novo ambiente de trabalho”, disse.
A Presidente da Sodexo no Brasil, Andreia Dutra, ressaltou a contratação de Vanessa por meio do projeto como um indicativo de mudanças na cultura pela diversidade nas corporações: “Acredito que, com mais esta edição [do curso], vamos conseguir sensibilizar outras empresas a aderir ao projeto e se unir na promoção da empregabilidade de uma parcela da população muito talentosa e que ainda é muito excluída”.
Uma outra formanda da 1ª edição, Bia Mattos, foi contratada pelo restaurante Fitó, que só emprega em sua equipe mulheres cis e trans. “Estamos muito contentes em ter ela lá. Dar espaço para a diversidade das formas de ser mulher é fundamental para o Fitó”, afirmou Tomás Foz, um dos sócios do restaurante. Morena Caymmi, mulher trans, jornalista e fotógrafa, trabalha como hostess do Fitó há quatro meses: “Esse é meu primeiro emprego de carteira assinada (...) É muito bom acordar e ir para um lugar onde você não é tratada com outro pronome que não seja ‘ela’, ou outro artigo que não seja ‘a’. Não existe outro nome senão o meu nome social que eu escolhi”.
Olhando para o futuro
Para a chef Paola Carosella, o Cozinha & Voz possui um enorme potencial para se expandir e atender diferentes grupos de pessoas, de diferentes formas, para inseri-las no mercado de trabalho. “Esse projeto precisa crescer e continuar”, disse ela. Na formatura da 2ª turma do curso, a coordenadora nacional da Coordenadoria Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidade e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade) do MPT, Valdirene de Assis, explicou que o Cozinha & Voz é parte de um Projeto Nacional de Empregabilidade para a população LGBT e deve ser levado em breve para outros estados e públicos, como os jovens negras e negros.
“A OIT tem como mandato a promoção do trabalho decente, que é o trabalho em condições de igualdade, liberdade e dignidade humana. Como uma agência da ONU, estamos ligados à Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, que tem a missão de não deixar ninguém para trás”, afirmou Hahn. “Isso nos dá uma responsabilidade fundamental de lutar contra todos os preconceitos que excluem grande parte da população dos direitos fundamentais, como o direito de ser”.